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Poesia: Clementino carroceiro
 

Nasci e criei-me na vila pitchula!
Conheci Clementino carroceiro
Que viveu a vida em plena labuta,
Em trabalho honesto sustentou
A penca de filhos e a china;
Até o ultimo lampejo de sua sina.
 
Madrugada, atrelava rápido o matungo.
E entre os cabeçalhos
Acolherava-o a gaiota.
E dali ganhava o mundo,
Com os guaipecas latindo
E avançando na carroça.
 
Madrugador, Clementino chureiro
Era um despertador,
Onde passava parelheiro
Acordava a vizinhança
Com o latido da cachorrada,
Armando a maior lambança.
 
Depois, que ganhava a rua,
Tinha como destino certo
O matadouro; para esfolar rês.
Era assim, que ganhava a vida,
Sem patrão, sem soldo certo
No fim do mês.
 
Vivia da venda,
De vísceras bovinas,
Aos deserdados das vivendas,
Localizadas nos guetos miseráveis,
Tanto, quanto para  muita gente fina,
Que também comia dessa iguaria.
 
Muito acompanhei
O velho Clementino,
Nessas investidas, e lembro-me
Que faltando mercadoria,
Entre as freguesas por vezes,
Aos empurrões quase dava briga.
 
Era esperado em hora certa
Por senhoras com bacias, formando fila
Reluzindo ao sol de tanto brilho.
Para não perder o que tinha de oferta.
E este tumulto se fazia todos os dias
Para comprar churia vendida por quilo.
 
Havia de tudo, naquele açougue ambulante.
Fígado, passarinha e rim;
Era venda certa para o Amarante.
Mondongo ou dobradinha,
Toda sexta-feira era compra certa;
De dona Mariazinha.
 
Maria gostosa ou ponta da fraldinha
Era a maior encomenda disputada,
Encostando a carroça saltava o mulheril
Mas, quem levava era sempre a velha Lilioza.
Restava apenas coração ou vitela desossada,
Para as freguesas que não ouviam o assovio.
 
Mas não ficava só nisso,
O cabeça branca, coração de anjo,
Que se esforçava para ser bruto
Sempre trazia de lambuja chouriço
Para dependura num gancho
Na cozinha, de um humilde matuto.
 
E nas vésperas natalinas
Enchia de miúdos de ovelha
Aquela carroça até em cima
Indo as periferias mais pobres
Distribuir aos deserdados
Que o esperavam no largo.
 
O esperavam em alegria e alvoroço
Aquelas mão estender a eles
Para comer no almoço
Daquela data sagrada
Ao menos uma cabeça
De ovelha assada
 
Tem coisas, que na vida nos marcam,
E só de pensar escapam-me lágrimas
Ao reviver essas antigas andanças,
Que muito marcadas na infância ficaram,
Da vida em ensinamentos e lições máximas,
Eternizadas na minha lembrança.
 
Clementino carroceiro,
Nunca se envergonhou
De ser pobre , de  seu oficio...
Labutava o dia inteiro
Ensinando ganhar a vida
De um jeito sempre honesto.
 
Esse velho conhecido carroceiro da cidade,
Um dia foi rico. Morreu pobre,
Mas nunca perdeu a dignidade.
Ensinou-me, o benefício da pobreza;
Que ao contrário da riqueza que entorpe,
Aproxima-nos da caridade.
 
Hoje com o tempo avançado
Lembro-me saudoso do guri
Nesse pedaço de vida  vendendo Churia,
Que lhe proporcionou,
Agasalho, estudo e guarida;
Além de lhe encher a barriga.
 
Mas no dia que Clementino
Deu o ultimo suspiro.
Estava eu longe em outra plaga,
Cumprindo meu destino.
Não cheguei a tempo
De vê-lo no féretro.
 
Em São Borja, não chorei...
Não montei escarcéu
Apenas me conformei;
Porque logo que cheguei
Ouvi um ranger de carroça
Que subia em direção ao céu.
 
Sempre que posso retorno
Para rever os familiares e amigos
Num sagrado ritual de irmandade,
Em São Borja na costa do Uruguai
Para não esquecer minhas origens
Muito menos, quem foi meu pai!


Autor: Davi Roballo

 
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